‘Petra’, com Bete Coelho, incendeia o palco com Fassbinder – 09/07/2024 – Ilustrada

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O cineasta e dramaturgo alemão Rainer Werner Fassbinder usava a imagem de uma casa para descrever a sua obra, composta por dezenas de filmes e peças. Uma delas, “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant“, que estreou em 1971, correspondia ao quarto de sua construção, um cômodo de natureza íntima.

No ano seguinte, seis meses após a estreia nos palcos, Fassbinder levou o texto às telonas e transformou o espectador em um voyeur da permanente tensão, provocada pelo artista, entre as linguagens do cinema e do teatro. O longa se tornou, mais tarde, um clássico da sétima arte.

Sob o título de “Petra”, a obra volta agora à cena, no teatro Cacilda Becker, em São Paulo, num espetáculo concebido pela Cia. BR116, com direção de Gabriel Fernandes e Bete Coelho, premiada atriz que vive a personagem principal. “Teatro não é passatempo. É um assunto necessário”, diz ela. “Não faço peças para ficar rebolando ou para eu me envaidecer. O meu teatro é de companhia.”

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Na história, Petra von Kant é uma estilista de alta-costura que passa o tempo todo em seu quarto, dando ordens para a assistente Marlene, interpretada por Lindsay Castro Lima. Ali, ela recebe as amigas Sidonie, papel de Clarisse Kiste, e Karin, personagem de Luiza Curvo, por quem descobre ter uma paixão avassaladora.

No quarto, ela ainda é surpreendida pela presença da filha, Gabriele, vivida pela estreante Miranda Diamant Frias, e trava embates com a sua mãe, Valerie, papel de Renata Melo.

“Gosto muito de dançar, o que facilita muito. E, quando minha mãe dirigiu a peça ‘Escute as Feras’, passei a gostar mais de teatro do que gostava antes”, diz Diamant Frias, lembrando a última montagem teatral liderada pela mãe. Ela é filha da editora Fernanda Diamant com o jornalista Otavio Frias Filho, que dirigiu este jornal até sua morte, há seis anos, e também foi dramaturgo, autor de peças como “Rancor”, de 1993, e “Don Juan”, de 1995.

Na montagem, a cenografia, assinada por Daniela Thomas e Felipe Tassara, é formada por espelhos, uma das marcas do cinema do diretor alemão, e deixa à mostra a estrutura das coxias do teatro. Se Fassbinder usava os espelhos para refletir as identidades dos personagens, a nova peça materializa, no jogo de reflexos, a experiência claustrofóbica enfrentada por Von Kant.

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“Ao se passar num único ambiente, a história mostra que uma só pessoa pode ser boa e ruim ao mesmo tempo. Não tem vilão e mocinha”, diz Curvo. No palco, o ambiente se completa com uma cama e um carrinho de bebidas.

Ao longo do tempo, a cena teatral do país viu algumas encenações do texto. A mais célebre, é certo, foi estrelada por Fernanda Montenegro, há quase cinco décadas, com um elenco que ainda tinha Renata Sorrah. Foi um dos maiores êxitos de toda a carreira de Fernanda.

Um dos principais nomes do novo cinema alemão, Fassbinder iniciou a sua trajetória como diretor de peças do Action-Theater, de Munique. Cioso com a crescente influência do novo diretor, um dos integrantes do grupo resolveu destruir o edifício.

De todo modo, a instituição foi reformada pelo próprio Fassbinder, sendo rebatizada como Antiteatro. Com o nome, Fassbinder já anunciava o tom crítico do trabalho desenvolvido pela trupe, incluindo no palco os segmentos marginalizados da sociedade. Ele mesmo era bissexual e, devasso, morreria, aos 37 anos, vítima de uma overdose.

Nas primeiras peças, seu estilo de direção se assemelhava àquele do cinema, com marcações rigorosas e a estaticidade dos atores nos quadros.

No que se refere à representação, Rainer Werner Fassbinder subverteu a cena burguesa, incorporando referências dos cabarés e dos protestos de movimentos estudantis.

Ainda jovem, passou a dirigir filmes freneticamente e se distanciou pouco a pouco do teatro para rodar obras como “O Medo Devora a Alma”, de 1974, e “Berlin Alexanderplatz”, de 1980, série em 14 episódios que adapta o romance de Alfred Döblin, ambientado na Alemanha do fim dos anos 1920. Foram quase 40 obras para TV e cinema em apenas 13 anos, de 1969 a 1982.

“Ao se passar num único ambiente, a história mostra que uma só pessoa pode ser boa e ruim ao mesmo

“As Lágrimas Amargas de Petra von Kant” remonta à fase em que Fassbinder mostrava particular interesse pelo melodrama, ao modo das produções de Hollywood, sobretudo assinadas por Douglas Sirk, de “Tudo que o Céu Permite” e “Imitação da Vida”.

Num tempo em que os artistas preferem falar de si explicitamente, Fassbinder impressiona ao tematizar o universo feminino, refletindo ali angústias pessoais. Nas telas, Petra von Kant foi eternizada pela atriz Margit Carstensen.

Em suma, ele parecia adorar a figura feminina, um traço de sua personalidade que pode ter a ver com o apego materno e a própria bissexualidade. Não por acaso, o filme é conhecido por ser a recriação do seu cotidiano com o namorado e com seu assistente.

Em paralelo, a obra é de um notável germanismo. Fassbinder explorava as múltiplas faces, na tentativa de reinventar os traços de uma Alemanha ainda dividida pelo muro, após o horror do nazismo e da Segunda Guerra Mundial.

Para tanto, ele mobilizou referências da estética germânica. O sentimento de lassidão, fundamento para a construção das personagens, se mostra caudatário de uma herança que vai do filósofo Arthur Schopenhauer, no século 19, até a modernidade artística.

Palavrosa, a obra se distingue por enfatizar, ao modo da psicanálise, a importância da fala. Consumando o narcisismo de Von Kant, a assistente Marlene não tem nem uma fala sequer ali. Sobretudo, a tensão entre o cinema e o teatro se dá pelo pensamento do dramaturgo e encenador Bertolt Brecht.

Nesse filme, Fassbinder prefere enquadramentos que lembram a cena teatral, mas já é possível notar uma câmera viva, que passeia devagar pelo quarto, para mimetizar o olhar humano —um estilo influenciado pelos filmes do conterrâneo Max Ophüls.

Ao mesmo tempo, o foco embaçado lembra que o espectador está no cinema. Tais procedimentos conferem à obra o efeito de distanciamento, conceito-chave da teoria brechtiana, que estimula o tom crítico da plateia e assume a arte como representação.

Ao juntar o melodrama e Brecht, Fassbinder inspirou também a adaptação da obra em ópera por Gerald Barry, em 2005. O cosmopolitismo de Hollywood e o efeito de distanciamento se encaixam ainda na proposta da Cia. BR116.

“Todo ator não deveria se emocionar, mas movimentar o espectador. Isso é condição ‘sine qua non’ para um bom ator”, afirma Coelho. “Ser um bom artista não é se afogar em lágrimas. Muitas vezes alguém fala ‘ah, a minha personagem não veste branco’, mas isso não está no texto.”

Do Antiteatro de Fassbinder, a trupe da atriz cultiva o antinaturalismo, distante da indústria do audiovisual, que se apoia no método de Constantin Stanislávski. “A tradução de Stanislávski é péssima, e isso faz com que ele seja mal compreendido”, diz Coelho.

Na montagem, o distanciamento se completa com o uso de canções, interpretadas, à maneira dos cabarés, por Laís Lacôrte. Fundada há 15 anos, a Cia. BR116 vem explorando, no campo da linguagem, a relação entre teatro e cinema em espetáculos como “Molly Bloom” e “Medeia”.

“Fassbinder sempre morou no fundo da minha alma”, afirma Gabriel Fernandes, o diretor. “A ideia agora foi tirar do cinema e pôr tudo no teatro.” Fassbinder recusa o caminho fácil de abordar o cinema por aspectos técnicos. Assim como no filme, “Petra” tem a cena despojada de objetos. Formalista, a Cia. BR116 se opõe ao circuito comercial.

“O fantasma do mercado pede musicais ou outros enlatados. Eu gosto de pensar”, diz Coelho, que trabalhou com os principais diretores de teatro do país. Mineira, ela se mudou para São Paulo e integrou o Centro de Pesquisa Teatral, o CPT, de Antunes Filho. Em seguida, firmou a sua parceria mais longeva, com Gerald Thomas, e levou seu conceito de ópera seca para o mundo. Também foi dirigida por Zé Celso em “Cacilda!”, no Teatro Oficina.

“Zé Celso foi desprezado a vida inteira. Agora todos dizem que ele é genial, mas essas pessoas nunca foram a uma peça dele”, afirma Coelho. Na TV, a atriz fez novelas da Globo, como “Vamp” e “Kubacanan”, mas se notabilizou por seu trabalho no teatro.

Coelho não recusa de todo o universo televisivo, embora reconheça as mudanças pelas quais o formato passa. “É insano e desgastante trabalhar em TV num formato de novela, por isso o salário precisa compensar. Eu faria com prazer TV, porém não no formato de novela e semelhantes.”

Já Luiza Curvo passou 20 anos no ar, emendando trabalhos, como em “Chocolate com Pimenta”, na Globo, e “Luz do Sol”, na Record. Ela diz gostar de todas as artes. “Telenovelas são importantes pelo alcance gigantesco”, diz. “E acho que a gente pode encontrar qualidade artística em diversas linguagens.”

Agora em “Petra”, que ganhou uma nova tradução por Marcos Renaux, as atrizes estarão diante de uma obra em que a relação com o tempo presente é intrínseca ao texto.

O narcisismo de Petra von Kant, sempre maquiada e bem vestida, é um comportamento típico da modernidade, era em que a existência passou a ser uma invenção de cada indivíduo. No século 21, os espelhos estão ao alcance dos celulares.

Do mesmo modo, o amor se transfigura. O homem, porém, parece cada vez mais fora de cena, como na obra de Fassbinder. As duas atrizes lembram o diretor, pensando no que a figura masculina representa para suas personagens. “Eles fedem”, elas dizem —e riem.

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